O documentário “Ronaldo”, já disponível em todo o Mundo, é uma desilusão tanto para cinéfilos como amantes de futebol. Estamos a falar de alguém que esteve para não nascer, porque a sua mãe não tinha dinheiro para sustentar um quarto filho; de alguém que com 12 anos saiu de uma ilha e foi sozinho para a capital; de alguém que ficou sem pai muito cedo e enfrentou o seu alcoolismo durante anos a fio, da qual a sua mãe era vítima. E de alguém que até é pai de uma criança cuja mãe não se conhece. Que mais quereria Anthony Wonke para transformar em cinema uma história de vida como esta? E teve ao seu dispor 14 meses para fazer o que quisesse. Muito pouco há de intimista, exclusivo e definitivo, como sugere o slogan. O que há de intimista em mostrar uma garagem com 10 máquinas topo de gama? E o que há de intimista em dois ou três jantares de fato e gravata com recurso a multi-câmara, à beira de uma piscina? E o que há de exclusivo em chamar o Messi por 10 segundos para cumprimentar o filho de CR7?

Não é um documentário sobre futebol, porque não há entrevistas exclusivas, para além de Jorge Mendes. Não há quase nenhuma reportagem no âmbito do universo social do jogador durante a sua carreira (incluindo Sporting e Manchester, onde se fez homem). “Se fosse hoje, teria optado por não jogar no Mundial do Brasil”, é a única revelação de interesse jornalístico em mais de 90 minutos de conversa. E mesmo essa tem muito pouco de surpreendente, pois se Portugal tivesse passado a fase de grupos, porventura não haveria arrependimento. Outro exemplo: ouvir CR7 “cantar” um tema da Rihanna tem algum valor se não for explorada a grande relação de amizade que existe entre ambos?

E também não é um documentário sobre a vida de CR7, porque da vida dele fizeram parte mais duas irmãs; a manequim russa Irina Shayk – cuja relação só foi mediatizada enquanto durou – e tantos colegas de balneário e outros amigos que (não) ficaram pelo caminho.

“Ronaldo” é um estrondo de mediocridade e um exercício de gritante incapacidade em aprofundar emoções, se for tida em conta a dimensão biográfica que um dos melhores desportistas de sempre merecia. E para se transformar em cinema uma história destas seria preciso juntar paixão e narrativa. Não basta enquadrar planos de forma perfeita, fazer a iluminação certa e repetir (apenas) 5 por cento dos golos do futebolista de forma aleatória. A vida de alguém tão novo e com tanto para contar não pode fugir entre os dedos como uma manta de retalhos. Não é só o protagonista que manda no guião de um documentário e foi isso que aconteceu. Eram precisos jornalistas, contadores de histórias e amantes de cinema e de futebol. Ou simplesmente amantes. Em “Ronaldo”, não há amor pelo que se está a fazer.

 

Os bons segredos

Há bons e maus segredos, mas são os bons que dão nome às vivências e aos lugares e conferem sentido ao renascer cíclico dos dias. Um bom segredo não se conta a várias pessoas à espera que cada uma delas não o revele a mais ninguém. Um bom segredo é partilhado quando queremos que ele faça sentido ao ar livre da alma ou quando achamos que desvendá-lo pode salvar o mundo, o nosso ou o de outros. Assumir um segredo e contá-lo de forma desenfreada é o mesmo que acreditar que alguém com “nervoso miudinho” está tranquilo. E ser impaciente é o primeiro passo incerto, uma espécie de falsete da voz quando ele não encaixa numa melodia. E é também uma perda de tempo, para nós e para os que se preocupam connosco. É um passo atrás de olhos vendados na direção de um degrau, uma oportunidade deitada ao lixo de alimentar o amor e a amizade. Desfazer um bom segredo sem a consciência devida tem o mesmo efeito de jogar ao “amigo secreto” com apenas duas pessoas em jogo. Os bons segredos nasceram para assinar a memória e para se desvendarem na altura certa. Não há alturas erradas para o que vale a eternidade.

161 dias depois

É singular a sensação de perder. Uma pessoa, um lugar ou um desafio. E como qualquer sensação, sai da pele e também de onde mora, sendo invisivelmente transportada para um lugar onde não pertence. O coração quando abandona o lugar que o recebeu por direito, num hotel de cinco estrelas devidamente assinalado, fica a nu de tudo, dos vírus e dos monstros que imaginamos em criança. Das ironias e de tudo o que não é totalmente puro e verdadeiro. Há mensageiros e receptores de mensagens e ideias, mas há tantos outros ainda, os que habitam algures no meio da acção e da reacção. No tal lugar para onde salta o coração quando é atirado para um poço ou para um espaço sem fechaduras nem janelas. A sensação de perder vale por perder efectivamente. Não para os outros, mas para quem sente essa perda directamente. Encoraja-nos a crescer, a ganhar raízes e métodos emocionais, mas faz-nos perder horas de vida, em muitos casos irrecuperáveis. A sensação de perder é parecida com a de esperar pelo amanhã, mas quando ele chega continua a ser hoje. É permanente e presa em círculos. E fere da cabeça aos pés. A capacidade de libertar a perda e o luto e de fazer de conta que temos sete vidas é o maior tesouro emocional da humanidade. 

 

A nossa selva

Viver com receio do dia seguinte e com sonhos desfeitos pode assemelhar-se ao estado do único sobrevivente de uma queda de avião onde viajavam todas as pessoas que nos querem bem. Quando se instala um clima de carência globalizado, seja em que contexto for, há os que desistem, os que simplesmente se assustam e há ainda os que vêm as tão badaladas oportunidades, os que encontram ouro no meio do lixo ou que renovam e repensam o que parecia inalterável. O conceito de inocência pura deixa de existir e o coração de quem nunca o sentiu arrefecer passa a bater mais depressa, somente pelo medo de o ver parar. A crise (sim, essa “velhota” do presente) é bem mais do que uma causa e efeito de teor financeiro, é também a base que distingue um “ladrão” pobre de um “ladrão” rico. Ambos contrariam a lei, mas só os primeiros o fazem em alternativa. Ainda há corações moles e perspetivas cor-de-rosa de um mundo em queda, mas há cada vez mais sinceridade em cada olhar. Aquele que se vê (de imediato ou apenas à segunda vez) e não o que se escreve ou o que se transporta na voz. Porque a arrogância e a inteligência de quem cresce em cima dos ombros de outrem tem um fim à vista. A impunidade é uma “invenção” dos tempos modernos, só isso. O espaço florestal no mundo cobre quase um terço da superfície terrestre, mas o manual de “como viver numa selva” deveria ser distribuído pelo planeta inteiro. Sim, podemos juntar quem nos quer bem de um momento para o outro – uma vez na vida é, para muitos, suficiente – e abraçarmos quem gostamos como se fosse a última vez, mas a selva não é para todos. Sobreviver nela e fazer feliz quem cresce e/ou faz-nos crescer ao seu lado é a mais pura e única grande vitória de qualquer um de nós. A paciência e o saber são os verdadeiros trunfos de quem não encara a vida como uma estação de serviço da A1. 

Dentro e fora do contexto

Fazer o que mais se gosta e o que nos apetece, hora após hora, não é uma consequência natural de termos nascido um dia, mas sim um acaso, salvo raríssimas exceções. Quem diz e faz o que quer sem hesitações é constantemente notícia, porque está demasiado dentro ou demasiado fora do contexto. É, portanto, alguém que toca no extremo e por lá fica, do melhor que há na vida ou do pior que ela tem. Porém, morar no extremo terá tanto de excitante como de perigoso. Não abraçamos o vazio, nem conseguimos viver sozinhos numa ilha deserta para sempre, mas há quem acredite que tudo isso é possível, consoante o contexto que foi lhe foi escrito quando nasceu. Os países mais ricos do mundo em matéria que provém da natureza são simultaneamente os mais pobres e os mais corruptos. Podemos querer tudo sem termos nada, mas também podemos não querer (ou não ter) absolutamente nada, mesmo tendo “tudo”. Estar fora do contexto e ser muito feliz dessa forma é o maior luxo que se pode ter nos dias de hoje e uma espécie de purgatório anunciado. E depois há todos os outros: os que não arriscam um milímetro, como se conseguissem saber as horas exatas apenas pela posição do sol, mas preferissem olhar para um relógio suíço que têm no pulso. Como se pudessem cantar para alguém, mas preferissem ouvir o seu próprio eco durante largos minutos e fazer cânone em cima dele. Esses não fazem sempre o que gostam ou querem, mas acreditam que a sorte (se é que esse conceito existe para lá do dicionário) dá, de facto, muito trabalho.

De oito a oitenta

Segundo a numerologia judaica, o algarismo 8 representa a preocupação com o que não interessa e o número 80 com o que nos transcende e não deve estar ao nosso alcance. Por isso, andar entre o 70 e o 79 deve ser o ideal para viver de consciência tranquila, com o aproveitamento necessário e sem ambições desmedidas. No entanto, há que passar pelo 8 para chegar ao 79. Há que saber o que não queremos nem desejamos e o Mundo encarrega-se de nos mostrar isso, de forma a fazermos as escolhas certas. Não há nenhuma escola que nos ensine a chegar ao 79 e a apurar a nossa escala de valores na medida certa. Fugir à regra é humano e ainda bem, pois de outra forma não haveria cadeiras vazias para os mais ousados.